Você. É, você mesmo. Você, aí,
que vive dizendo que mudaria tanta coisa se pudesse voltar no tempo.
Feche os olhos, relaxe, e
imagine:
Você tem sete anos. Está na sala
de aula, e em um piscar de olhos, continua lá, mas sua consciência atual está lá.
Você se lembra do momento, sabe o que vai acontecer depois. Você, seu cérebro
de hoje, está no passado. Pode controlar seu corpo. Sabe o que vai acontecer
depois, sabe o que estão pensando sobre você. Sabe que vai passar de ano, quem
são suas amigas de verdade, quais delas vão sumir depois.
Você vai agir naturalmente?
Entrar em pânico?
Vamos lá! Não era isso que você
queria?
Tudo o que eu queria naquele
momento era vomitar. Chorar. Eu estava vendo o passado, e fiz exatamente o que
eu havia feito na época. Porque fazia parte de mim naquela época fazer o que eu
fiz. Ser quem eu era. Mesmo com os machucados adquiridos tantos anos depois, eu
fui quem eu era naquela época.
Porque o ambiente favorecia. As
pessoas favoreciam. Minha aparência favorecia.
E eu fiz exatamente o que eu fiz
na época. Não faria diferente.
Engraçado, né?
E eu pisquei os olhos, e estava
na sétima série, apresentando um trabalho de 'ciências' - a.k.a biologia. A
vontade de chorar foi mais forte. Meu professor estava ali, e meus colegas também.
E eu sabia que noventa e nove por cento deles me odiavam.
Porque o ambiente favorecia. As
pessoas favoreciam. Minha aparência favorecia. Minhas novas opiniões
favoreciam.
Então eu respirei fundo, no meu
corpo de treze anos, e olhei as informações no slide. Claro que eu sabia bem
melhor do que eu sabia na época. E eu dei meu melhor, e não saiu muito do
roteiro da época. Eu queria gritar pra todo mundo que tinha vencido na minha
vida, e que todos eles iam fazer pré-vestibular à toa depois, que eu sabia
exatamente quem ia conseguir e quem não ia.
Mas por que eu libertaria aquelas
pessoas? Porque a verdade liberta, por mais que irrite de início.
Então eu não falei nada. Do mesmo
jeito que não falei nada em 2007, porque eu não sabia de nada. E meu professor
bateu palmas ao final da apresentação. E ninguém notou que eu estava diferente.
Talvez porque, querendo ou não,
mesmo que a gente mude, nós somos algo homogênio.
Completamente homogênio.
Somos em tons degradê, e o que nós
somos é uma mistura de todas essas cores. Nossa história é uma fita colorida
que muda de tom aos poucos.
Pisquei novamente, e acordei
chorando. Porque no final de contas, eu sabia que o passado não voltaria, por
mais que sentisse saudades dele.